
Para entender a importância do brincar na natureza, primeiramente é preciso reconhecer que somos seres naturais, filhos da mãe Terra e à ela ligados. Em segundo lugar é fundamental ter claro que antes do ser humano se tornar Homo Sapien – um ser pensante, e Homo Faber – aquele que faz, ele se constitui como Homo Ludens – um ser lúdico, que brinca, joga, interage de forma brincante sob a influência de sua cultura, como afirma o historiador holandês Johan Huizinga.
Partindo dessa premissa, podemos afirmar que brincar na natureza é fundamental para o desenvolvimento integral da criança.
Diversos estudos apontam os efeitos positivos do brincar ao ar livre na infância. Seus benefícios abrangem aspectos físicos, psicológicos,cognitivos, sociais e espirituais.
O jornalista e especialista em advocacy pela infância Richard Louv , em seu livro “A última criança na natureza”, traz inúmeros estudos sobre os benefícos do brincar na natureza. Entre eles, destaca uma pesquisa feita pela Universidade de Illinois que mostrou redução dos transtornos de ansiedade entre crianças de 7 à 13 após o aumento de tempo em contato com a natureza. Outro estudo feito em Massachussets em escolas, constatou que alunos tiveram aumento de desempenho e resultados satisfatórios depois de ficarem mais tempo ao ar livre.
Sob o ponto de vista físico é importante ressaltar que os primeiros anos de vida da criança correspondem ao ciclo do movimento e por este motivo a criança necessita de experiências diárias de expansão e atividades corporais livres e espontâneas como correr, pular, saltar, rolar, escorregar, girar, subir e descer morros, trepar em árvores, etc.
Para isso precisamos garantir liberdade, tempo, e acesso à espaços abertos, amplos, em terrenos irregulares e diversificados – de terra, grama, pedrinhas, que possuam elevações e declives, favorecendo assim diferentes estímulos motores e sensoriais.
BENEFÍCIOS DO BRINCAR NA NATUREZA
Tudo isso contribui para a estruturação do sistema muscular da criança e seu desenvolvimento motor, gerando destreza corporal e domínio espacial.
Para a conquista do equilíbrio, o corpo precisa de liberdade de movimentos em diferentes direções. A musculatura dos pés e pernas são estimuladas ao deixarmos a criança andar de pés descalços, promovendo desenvoltura no andar, correr e saltar.
O fortalecimento dos músculos de todo o corpo reflete no aprendizado de forma significativa – na habilidade e força das mãos para segurar o lápis de maneira correta, e na boa estrutura dos ombros que promovem uma postura adequada gerando concentração e foco na criança.
Além disso, brincar na natureza propicia um gasto maior de energia, o que auxilia na prevenção da obesidade, no alívio de tensões, e na qualidade do sono que está diretamente ligada ao crescimento infantil.
Previne também a deficiência de vitamina D, pela exposição aos raios solares, importante para o desenvolvimento dos ossos, e ainda propicia o exercício dos músculos oculares. O passarinho que passa voando atrai a atenção da criança que segue seu trajeto até o perder de vista. Em outro momento a descoberta de uma joaninha a passear em uma folha, permite a aproximação da criança para observar de perto. Esta alternância de foco – perto/longe – auxilia na prevenção da miopia.
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Brincar na natureza também fortalece o sistema imunológico, pois a criança entra em contato com uma série de bactérias e micro-organismos, prevenindo também o desenvolvimento de alergias.
Outro valioso benefício é que em ambientes naturais a criança fica exposta à situações imprevisíveis e desafiadoras. Isto possibilita importantes aprendizados, tais como saber correr riscos e medi-los. Riscos são aqueles cujas consequências são baixas e aceitáveis, ao mesmo tempo que os ganhos de desenvolvimento da criança são altos.
Apesar de conhecermos todos esses benefícios, hoje a infância sofre com as dificuldades e limitações de oportunidades de desfrutar do brincar na natureza, em espaços amplos. Os efeitos do crescimento desordenado das cidades, a redução de áreas verdes, falta de segurança e qualidade dos espaços públicos ao ar livre, além da soberania da circulação de carros, levam as crianças ao confinamento. Produzindo a ilusão de proteção e segurança das crianças em ambientes fechados.
Outro fator responsável pelo isolamento da criança tem sido o excesso do mundo tecnológico. Crianças acessam cada vez mais cedo os dispositivos digitais e passam muito tempo conectadas à eles.
A Dra. Julieta Jerusalinsky, psicanalista infantil, alerta para os perigos do uso de forma inadvertida desses dispositivos pela criança, e ressalta a importância da qualidade da experiência interativa presencial dos adultos nos anos iniciais de vida para a estruturação psíquica infantil.
Entre os perigos citados por ela estão: a ausência psíquica dos pais – de corpo presente mas ausentes psiquicamente em relação aos filhos; a linguagem fria produzida por esses aparelhos, que emitem sequências sonoras mas não estabelecem um diálogo com a criança; e a falta de mediação dos adultos em relação ao conteúdo acessado via internet. Trata-se de informações desprovidas das experiências vivenciadas dos adultos, sem a transmissão de valores culturais.
Não se pode negar os benefícios das inovações tecnológicas, mas é preciso chamar a atenção para as influências e consequências desta revolução digital na vida dos pequenos em fase de formação. Além do risco de ser viciante e causar dependência, seu uso abusivo interfere no convívio social, na qualidade dos relacionamentos e fortalecimento de vínculos afetivos, reduz os momentos de lazer da família, rouba o tempo do brincar, inibe o exercício da imaginação e criatividade da criança .
QUEM É RESPONSÁVEL PELO BRINCAR NA NATUREZA?
Aos pais cabe a responsabilidade de estabelecer limites seguros e coerentes de tempo de uso das telas pelas crianças e de também estimular e propiciar aos filhos momentos de brincadeiras ao ar livre.
A escola como elo entre a família, a cultura e a infância, tem a responsabilidade de ampliar o mundo da criança e oportunizar o que está faltando na sociedade. As escolas estão sendo desafiadas a romper com o velho modelo de sala de aula entre quatro paredes com carteiras enfileiradas, e despertar para o potencial educador da natureza, reconhecendo outros territórios educativos como ambientes de aprendizagem e brincar livre.
Hoje as crianças passam a maior parte do dia dentro das instituições educacionais. Desta forma é tarefa da escola garantir espaços e atividades que promovam o equilíbrio emocional dos alunos.
Devemos nos conscientizar de que tanto a escola quanto a família desempenham um papel fundamental no estabelecimento e incentivo da conexão das novas gerações com a natureza, e este trabalho está ancorado na liberdade do viver natural e lúdico nos primeiros anos de vida da criança.
Conheça os livros ‘‘A Turma da Floresta uma brincadeira puxa outra’ e o ‘Livro da Educador brincando com a natureza’ , sinta-se inspirada(o) a brincar na natureza com as crianças.
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Abraço caloroso
Ana Lúcia Machado