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PRIMEIROS SINAIS DE ENVELHECIMENTO. COMECE A COMBATÊ-LOS

Primeiros sinais de envelhecimento

A partir dos 30 anos começa a surgir os primeiros sinais de envelhecimento, com as primeiras rugas na testa, região dos olhos, boca e nariz, tanto nas mulheres como nos homens, as tais marcas de expressão. A preocupação com a beleza é uma marca cultural do brasileiro: seis em cada dez pessoas consideram-se vaidosas e 66% acham que cuidar da beleza não é um luxo – mas sim uma necessidade.

A indústria nacional de cosméticos teve um crescimento de 275% em faturamento na última década, segundo dados da associação brasileira do segmento. Considerado hoje um dos maiores mercados do mundo, a cada ano aumentam os investimentos em pesquisas, e novos produtos são lançados no mercado com a promessa de garantir uma aparência mais jovial. E assim, milhares de pessoas alimentam este mercado que só no ano passado movimentou R$ 42,6 bilhões.

Primeiros sinais de envelhecimento

Mas será mesmo que os primeiros sinais de envelhecimento surgem com as rugas de expressão, ou o verdadeiro envelhecimento começa na alma humana?

Vale iniciar esta reflexão observando que todos os seres vivos nascem “prontos”, como as plantas e animais. Porém com o ser humano é diferente. Nós não nascemos prontos, somos seres em construção. Como diz o filósofo e professor Mario Sergio Cortella “Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta, e vai se fazendo”. Ao longo da vida, num processo doloroso e ao mesmo tempo lindo, vamos nos construindo, crescendo, amadurecendo. Temos toda a existência para construirmos a nós mesmos.

Sócrates dizia que “sábio é aquele que sabe que nada sabe” e que “o princípio de toda a sabedoria é o conhecimento de si mesmo”. Desta forma o autoconhecimento e a autoeducação devem ser caminhos trilhados pelo homem até o seu último sopro de vida.

Primeiros sinais de envelhecimento

Quando homens e mulheres perdem a vontade de aprender coisas novas constantemente, tem início o processo de envelhecimento da alma.

Há pessoas que vivem se referindo a experiências do passado e, dificilmente, se surpreendem com as descobertas feitas por outros. Você pode até se aproximar cheio de entusiasmo contando sobre uma nova experiência que te surpreendeu, mas elas se voltarão para você perguntando “Mas você não se lembra que quando comecei a trabalhar naquela empresa há 10 anos, eu já falava que isso aconteceria assim?”. E por aí vai.

Para este tipo de pessoa, nada é novo, nada surpreende, tudo é previsível, tudo já foi dito e vivenciado. Fica evidente a dificuldade de se enxergar a vida com um novo olhar, se encantar e surpreender. Fica sempre a impressão de que nada se iguala ou supera as referências do passado. Fica faltando espanto!

Vida é movimento, é desenvolvimento! Estamos em contínuo processo de autoconhecimento e autoeducação com o intuito do aprimoramento de nossos potenciais. Velho é o ser humano que não desperta o eterno aprendiz dentro de si, que não se desafia a sempre aprender algo novo.

O envelhecimento chega para aqueles que se mostram incapazes de aprender, desaprender e reaprender. O envelhecimento chega para aqueles que deixam de sonhar, de almejar. O envelhecimento chega para aqueles que se sentem satisfeitos e com isso se acomodam, deixando de movimentar a energia vital. Samuel Ullman, poeta americano, dizia que “O tempo enruga a pele, mas abrir mão de entusiasmo enruga a alma”.

Seguem algumas dicas para manter a jovialidade:

Primeiros sinais de envelhecimento-Tome sol todos os dias , o sol tem ação antidepressiva.

-Reconecte-se a natureza, o contato com a natureza promove autorregulação do organismo.

-Resgate sua infância, desenvolva seu lado lúdico, brinque mais.

-Conquiste uma nova habilidade, aprenda um idioma, um instrumento musical, uma receita culinária, etc…

-Sonhe, os sonhos dão origem a mudanças .

Para finalizar, deixo um poema da querida poeta mineira Adélia Prado:

Primeiros sinais de envelhecimento

ERÓTICA É A ALMA

Todos vamos envelhecer… Querendo ou não, iremos todos envelhecer. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar.

A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos.

A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos.

O segredo não é reformar por fora.

É, acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior.

E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para suportar.

Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história.

Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos.

Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios.

Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo.

Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores.

Aprenda: bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

SABOTADORES DA INFÂNCIA – DA ESCASSEZ AO EXCESSO

Sabotadores da infância

A  luta por uma infância digna ainda é grande e deve ser nossa prioridade absoluta. São vários os sabotadores da infância que precisam  ser combatidos. Eles vão desde aspectos caracterizados pela escassez, até o outro extremo, os excessos da sociedade.

O desenvolvimento saudável da Primeira Infância é a base da prosperidade econômica e justiça social de uma nação. Sabemos que as primeiras experiências da vida de uma criança são incorporadas por ela, permanecendo por toda a vida. O que é vivenciado na infância afeta o  aprendizado, o comportamento, saúde, e segue reverberando ao longo da existência de cada indivíduo. Por isso, os sabotadores da infância que apontaremos aqui, precisarão ser encarados com seriedade em todas as esferas.

Nos próximos artigos no Educando Tudo Muda vamos falar um pouco sobre cada um dos sabotadores da infância. Queremos aprofundar um a um.

SABOTADORES DA INFÂNCIA

  1. TRABALHO INFANTIL

O trabalho infantil é um dos mais vis sabotadores da infância, um grave problema que enfrentamos no país. Mais de 2,670 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, trabalham no Brasil, segundo informações da Rede Peteca/Chega de Trabalho Infantil. O trabalho infantil está ligado às atividades econômicas e/ou atividades de sobrevivência, com ou sem finalidade de lucro, remuneradas ou não.

Pesquisa divulgada pela OIT – Organização Internacional do Trabalho, constata que o setor que mais explora a mão de obra infantil no mundo, é o agrícola, representando 58,6%, seguido pelo setor de serviços, com 32,3%, sendo 6,9% em serviços domésticos, e do setor industrial, correspondendo a 7,2%.

Sabotadores da infância

O trabalho na agricultura expõe a criança a uma série de riscos: intoxicação por agrotóxicos, queimaduras solares, transporte de peso excessivo, instrumentos cortantes, etc.

O corpo da criança  está em formação. Ossos e músculos ainda não estão totalmente desenvolvidos e podem sofrer deformações. Fígado, baço, rins, estomago e intestinos estão mais sujeitos à intoxicação.

Com relação ao trabalho doméstico, as meninas são as que mais sofrem. Muitas trabalham apenas por comida ou roupa, sem  remuneração. Elas correm maior risco de violência física, psicológica e abuso sexual.

A Constituição Federal proíbe o trabalho infantil. A idade mínima para o trabalho é de 16 anos. Antes disso, a partir dos 14, o adolescente pode ser apenas aprendiz.

O trabalho precoce prejudica a vida toda de um indivíduo. Compromete a infância pela falta do brincar, e  aprender. Prejudica a escolarização e acaba levando ao abandono escolar. Uma criança que entra no mercado de trabalho dessa maneira, receberá um salário menor por toda a vida.

Muitas vezes esta realidade parece  distante de nós, mas basta circular pelas feiras livres da cidade para constatar a presença de crianças trabalhando.  Recentemente no Carnaval de rua da cidade de São Paulo, muitas crianças trabalharam duro ao lado de vendedores ambulantes.

O trabalho infantil causa danos enormes sobre o aspecto físico, emocional, intelectual e social da criança, que é um ser em formação – fadiga excessiva, distúrbios do sono, problemas respiratórios, lesões, fraturas e evasão ou baixo rendimento escolar são algumas de suas consequências, além da privação de crianças e adolescentes de uma infância  e desenvolvimento saudável, resultando na perpetuação de ciclos de pobreza, miséria e desigualdade.

12 de junho institui-se Dia do Combate ao Trabalho Infantil. A data foi criada para mobilizar organizações e toda a sociedade em prol da erradicação do trabalho infantil, chamando atenção para as infâncias e adolescências invisibilizadas

 

2. ALFABETIZAÇÃO PRECOCE

A aceleração do letramento é um dos sabotadores da infância mais desrespeitosos à natureza da criança. Faço parte de uma geração que passou os primeiros anos de vida brincando em casa, com amigos da vizinhança, cuidando da minha cachorrinha, ouvindo histórias, andando de bicicleta nas ruas do meu bairro, e assim descobrindo e explorando o mundo. Na pré-escola , até os 7 anos,  aprendi muitas canções, ouvi muitas histórias, desenhei, pintei, recortei, colei, pulei corda, brinquei de roda, casinha, médico, professora. Aprendi a dividir com os amiguinhos, jogar de acordo com as regras, pedir desculpas quando necessário, cuidar das plantinhas, guardar e arrumar o que tirava do lugar, não mexer no que não fosse meu.

Há uma grande diferença entre a minha vida de menina e a vida das crianças nos dias de hoje. Os anos pré-escolares se transformaram em uma competição acadêmica exaustiva. A Educação Infantil ficou muito parecida com o Ensino Fundamental, por causa da ênfase na alfabetização.

 

Atividades que requerem que a criança seja capaz de se sentar em uma mesa e completar uma tarefa usando lápis e papel, que antes estavam restritas às crianças de 5 e 6 anos de idade, são agora dirigidas às crianças ainda mais novas, que não têm habilidades motoras e não têm a capacidade de concentração para isso, com exigências de que devem concluir seus trabalhos e atividades, antes que possam ir brincar.

Na contra mão desta aceleração,

especialistas afirmam que o aprendizado formal  é mais produtivo  a partir dos 6 anos de idade, pois é quando as crianças são mais capazes de lidar com ideias abstratas. Afirmam também que  crianças que chegam à escola socialmente adaptadas, que sabem seguir instruções, compartilhar, ajudar os amigos, terão mais chance de dominar a escrita, a leitura, e os números.

Em 2007, o Conselho de Pesquisa Econômico e Social da Inglaterra publicou um documento que contou com a participação de dezessete especialistas de diversas universidades europeias interessados na discussão entre a neurociência e a educação, que diz o seguinte:

“Contrariando a crença popular, não existem evidências neurocientíficas que justifiquem começar a educação formal o quanto antes. A plasticidade do cérebro é um fenômeno que dura a vida inteira, não somente nos primeiros anos.”

O trabalho nos primeiros anos de vida com a criança deve estar focado no desenvolvimento integral do ser humano, centrado no amadurecimento emocional, psicológico e social da criança.

 

 3. DÉFICIT DE NATUREZA

Estatísticas mostram que 80% da população brasileira vive em cidades e que as crianças que moram nos grandes centros urbanos passam 90% do seu tempo em locais fechados, dentro de casa,  em frente da televisão, jogando vídeo games, ou nas escolas dentro de salas de aula. Quando saem com os pais vão ao shopping, restaurante ou cinema.

Segundo dados do relatório Children & Nature Network, as crianças brasileiras  estão entre aquelas que tem menos contato com a natureza. Doenças que passaram a ser comum entre as crianças nos dias de hoje, tais como  transtorno de hiperatividade, déficit de atenção, depressão, pressão alta e diabetes, obesidade, estão diretamente ligadas com a falta de natureza.

Um movimento de retorno à natureza está se espalhando pelo mundo e já chegou ao Brasil. Trata-se do movimento de incentivar as crianças  a brincar ao ar livre, em áreas verdes. Uma pesquisa recente mostrou que 40% das crianças brasileiras passam uma hora ou menos ao ar livre. Um número inexpressivo. A expressão Transtorno do Deficit de Natureza  está circulando e sendo usado  por pediatras, psicólogos, educadores. Médicos já estão prescrevendo natureza para as crianças.

Sabotadores da infância

O que a falta de natureza pode causar?

-musculatura fraca, pela falta de atividade física

-falta de equilíbrio, pelo predomínio de pisos lisos, cimentados que oferecem pouca oportunidade de instabilidade na movimentação corporal

-obesidade infantil, associada a maus hábitos alimentares

-deficiência de vitamina D

-aumento de incidência de miopia

-menor uso dos sentidos

-ansiedade

Os benefícios da natureza já estão comprovados. Mais tempo ao ar livre regula hormônios, reduz a agressividade, hiperatividade e obesidade. Sucesso vem sendo obtido no tratamento de transtorno de déficit de atenção, depressão, e até mesmo quadros alérgicos, pois o contato com os antígenos naturais no campo ou na praia  fortalece o organismo. Além disso, aumenta  a capacidade cognitiva, e  as crianças ficam mais focadas e criativas.

Uma caminhada por uma mata fechada é capaz de promover bem estar e  tranquilidade. Assim que os odores da mata adentram o organismo humano, os níveis de estresse e irritação diminuem. A exposição mais prolongada e intensa ao cheiro do verde pode reduzir  a pressão arterial e fortalecer nossa imunidade.

Entre os sabotadores da infância apresentados, a desconexão com o mundo natural é aparentemente o mais simples de se resolver, entretanto requer esforços das famílias e das escolas para que se reverta este cenário de afastamento e se estabeleça novos hábitos de conexão no cotidiano das crianças.

 

LEIA TAMBÉM: O MUNDO DA CRIANÇA É REDONDO

 

4. USO EXCESSIVO DA TECNOLOGIA

O acesso precoce e abusivo dos dispositivos digitais por crianças pequenas, é um dos sabotadores da infância que vem “trabalhando” em silêncio há algumas décadas e que agora explode de maneira assustadora.

Hoje já são oito milhões de pessoas viciadas em internet no país, segundo o Grupo de Dependência Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do  Hospital das Clínicas de São Paulo. De acordo com o Dr. Cristiano Nabuco, psicólogo e coordenador do Grupo, a situação é preocupante. Ele tem atendido casos de crianças viciadas em smartphones, videogames e tablets, incapazes de se relacionar sem ser virtualmente, de manter a concentração, dar sequência a um raciocínio lógico. Há casos de crianças com um pouco mais de 2 anos de idade que não comem, nem vão para a cama se não tiverem o aparelho ao lado.

A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que crianças menores de 3 anos não tenham acesso e nem sejam expostas passivamente aos aparelhos tecnológicos. Às crianças maiores, a orientação é de limitar o uso ao máximo uma hora por dia. Recomenda-se ainda que crianças de 0 à 10 anos não tenham TV no quarto.

Por que  pais e educadores devem ficar atentos ao acesso tecnológico precoce e intenso?

O Dr. Cristiano Nabuco explica que “nosso cérebro sofre um processo de amadurecimento que só é finalizado após a maioridade, aos 21 anos. A região do córtex pré-frontal é a última área a ser finalizada, e o córtex é responsável pelo nosso raciocínio lógico e também pelo controle dos impulsos, nosso freio comportamental”. E mais: “existem operações mentais que precisam naturalmente serem feitas e o grau de estimulação de um tablet desrespeita essa ‘ecologia’, essa natureza de desencadeamento da lógica”.

Já se sabe por meio de estudos que quanto mais a criança ficar exposta a tecnologia, piores serão suas funções cognitivas, como a memória e desenvolvimento da atenção. O uso precoce e excessivo da tecnologia na infância pode prejudicar o desenvolvimento infantil, causando dificuldade de concentração, má qualidade do sono, sedentarismo, problemas de saúde mental, atraso de aprendizagem, entre outros distúrbios.

O mais interessante é que pais que trabalham no Vale do Silício, a meca tecnológica dos EUA, executivos de grupos como Google, Apple, Hewlett-Paackard, eBay, etc, tem preferido matricular seus filhos em escolas que sequer têm wi-fi. Não é a tecnologia usada em sala de aula o que julgam importante para o aprendizado da criança, e sim a filosofia de aprendizagem. Tudo porque eles entendem que a tecnologia de hoje será obsoleta amanhã, e que o relevante é o estímulo à criatividade, curiosidade,  habilidades artísticas, e a capacidade de mudanças. O próprio Steve Jobs foi um pai low-tech que controlava e limitava a quantidade de tecnologia aos filhos dentro e fora de casa.

As crianças só migram para a tecnologia porque estão confinadas em casa. Pense nisso.

 

    5.AGENDA LOTADA

Este é um dos sabotadores da infância mais sutis, que passa desapercebido pela maioria de nós. Já parou para pensar na complexidade das agendas infantis atualmente?  Muitas crianças mantêm uma agenda que faria qualquer CEO adoecer. As crianças são levadas de um compromisso a outro, de segunda-feira à sábado. Suas agendas estão lotadas de cursos extracurriculares, do balé para o inglês, mandarin, da yoga para o Kumon, e também natação, judô, piano, etc… Muitas crianças têm atividades extracurriculares no mínimo três vezes por semana, ultrapassando 50 horas semanais de atividades, entre escola, cursos, esportes e reforços escolares.

 

O que pretendemos com isso? Formar uma  super geração competitiva? Prepará-los  para o sucesso? A superestimulação promovida pelos adultos tem  levado as crianças ao esgotamento. Estímulo demais, concentração de menos. Estamos adoecendo nossas crianças.

Esquecemos que elas desde cedo tem no próprio ambiente natural, familiar, estímulos suficientes para seu desenvolvimento. Os estímulos externos criados artificialmente pelos adultos com o intuito de acelerar o desenvolvimento, anulam o que a criança tem de mais precioso que é sua motivação interna, alimentada por sua curiosidade inata.

O não fazer nada para a criança é muito importante, é o momento que ela faz de conta, inventa brincadeiras, faz seu brinquedo.  O tempo livre, o “tédio”, nada mais é que a oportunidade da criança entrar em contato consigo mesma,  estimular o pensamento, a fantasia e a concentração.

 

    6.MEDICALIZAÇÃO INFANTIL

Você sabia que o Brasil é o segundo maior consumidor  mundial de Ritalina? Trata-se de um medicamento indicado para o tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Em 2010 foram vendidas  cerca de 2 milhões de caixas, um aumento de 775% na última década, segundo a Anvisa.

Estamos vivendo um momento de patologização extrema de comportamentos infantis. Milhares de crianças estão sendo diagnosticados com algum tipo de transtorno: Transtorno de Défict de Atenção, Hiperatividade, Transtorno  Desafiador Opositor,Transtorno Obssessivo  Compulsivo, Transtorno do Comportamento Disruptivo, Transtorno Desintegrativo,  Transtorno de Ansiedade, Dislexia e por aí vai.  Até mesmo crianças pequenas estão engolindo antidepressivos com leite.

Com a justificativa de melhorar o desempenho escolar, as  conquistas de desenvolvimento que não acontecem no período esperado, e promover mudanças comportamentais não aceitas socialmente,  o medicamento tarja preta,  Ritalina, Concerta , tem sido prescrito, para tornar as crianças “obedientes, disciplinadas e concentradas”. Este é um dos sabotadores da infância mais covardes.

Para se ter uma ideia da gravidade da situação, já temos uma entidade voltada para o tema, a Associação Brasileira de Cientistas para Desconstrução de Diagnósticos e Desmedicalização,  além de um curso com este foco,  “Da palmatória a ritalina – especialização em desconstrução de diagnósticos para desmedicalização”.

Atualmente já são  quase 500 tipos descritos de transtornos mentais  e de comportamentos, segundo o Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Doenças Mentais.  Coisas normais da vida como a timidez, a teimosia, ou até mesmo a rebeldia infantil, estão sendo enquadradas em algum tipo de transtorno. É a normalidade e as diferenças individuais sendo medicalizadas.

Sabotadores da infância

Precisamos fomentar este debate em prol da saúde da criança e  enfrentar cada um dos sabotadores da infância de frente. Sopre esta semente ao vento, há de cair em solo fértil e tornar-se árvore frondosa. Participe deixando seu comentário e compartilhando este artigo.

abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

DE QUE É FEITA A INFÂNCIA?

De que é feita a infância?

De peito de mãe, de colo de pai

De abraço de tia e brincadeiras de tio

De sorriso e carinho de amigos, vizinhos e professores

De histórias e comidinhas de avós

 

De que é feita a infância?

De manhãs ensolaradas no parque, no tanque de areia

De sombra embaixo de árvores

De caminho de formigas, borboletas e joaninhas em folhas

De flores e canto de passarinhos

 

De que é feita a infância?

De que é feita a infância

De bolinhos e pingos de chuva

Até temporal em tarde de verão na varanda

De pés descalços na grama, na lama, na areia

De castelos na praia e banho de mar

 

De que é feita a infância?

De banho quentinho

De oração ao pé da cama

Contos de fadas, canção de ninar

De beijo de boa noite

 

De que é feita a infância

De que é feita a infância?

De quintal com um pouco de terra

De balanço, bolhas de sabão

De sorvete, bola, bicicleta

E pequenas travessuras

De que é feita a infância?

De cabana no meio da sala, embaixo da mesa

De pular corda, amarelinha

Esconde-esconde, pega-pega

Corre cotia, batata quente

 

De que é feita a infância

De que é feita a infância?

De rituais de celebração

Aniversário, São João, Natal

De irmãos, primos  e amigos

De sonhos, imaginação e descobertas

 

A infância é feita de calor, amor, presença

Brincadeiras, histórias, canções

Natureza, encantamento, fantasia

Experimentos, hipóteses e muitas perguntas


Alimente a infância de seus alunos, filhos, sobrinhos, netos, vizinhos…

O que acontece na infância, não fica na infância, carregamos por toda a vida. Desta forma, investir no começo da vida é garantir adultos saudáveis, íntegros.  A criança é a esperança de um mundo melhor.

Sou ativista pela infância. Implicante desde sempre com a sociedade moderna e seus efeitos nocivos sobre a criança. Regulava o tempo de exposição à televisão das minhas irmãs caçulas quando pequenas, pois naquela época, 30 anos atrás, já entendia a necessidade de preservar a infância, de protegê-la do despertar precoce da sexualidade, das imagens de violência, do consumismo incentivado pela publicidade, etc… Remar contra a maré é uma tarefa árdua, mas necessária. Devemos garantir à criança o brincar livre, o contato com a natureza, a presença de cuidadores amorosos.

Acredito que um país sério se faz priorizando o começo da vida e a educação. Vamos à luta!

abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

O MUNDO DA CRIANÇA É REDONDO

Afinal, o mundo da criança é redondo mesmo? Houve um tempo em que se acreditava que a terra era quadrada. Era o que afirmava a Ciência por volta de 1.500 d.C. Os grandes navegadores evitavam singrar mar adentro. Diziam que poderiam chegar ao fim do mundo e despencar num abismo. Foi Nicolau Copérnico quem descobriu que a terra é redonda. Porém, todo trabalho de Copérnico poderia ter sido poupado, se tivessem perguntado a alguma criança da época qual a sua forma. Qualquer criança teria dito que o mundo é redondo.

o mundo da criança é redondo

Foto: Território do Brincar

O círculo é sem dúvida a forma básica mais aplicada em toda a natureza: a Lua, o Sol, os planetas, as estrelas.  As células, átomos, elétrons. As formas das plantas, animais, estruturas geológicas. O óvulo, o útero. Todos representados pela forma circular.

Por caracterizar o TODO, o círculo é o símbolo divino. Sempre foi representado em todas as épocas como o símbolo da totalidade original do Universo, da unidade e plenitude. Remete ao infinito, a proteção, segurança, apoio, amizade, amor, cuidado, inclusão. É uma forma convidativa, maternal, acolhedora.

A Terra gira em torno do Sol ao longo do ano, assim como dá uma pequena volta em torno do seu próprio eixo no decorrer de 24 horas. Junto com a Terra giramos em torno dos afazeres cotidianos. Junto com a Terra, a criança também gira em suas inúmeras brincadeiras circulares.

O mundo da criança é redondo

A criança ao nascer é colocada no peito materno e tem nele o alimento que garante seu crescimento e desenvolvimento saudável. Podemos observar durante a amamentação, a mãozinha do bebê repousada sobre o peito arredondado da mãe e seus olhinhos fixos nos olhos maternos. É através desse olhar que inicia-se a comunicação e estabelece-se o vínculo amoroso.

É no colo da mãe, do pai, que o bebê encontra calor, aconchego.  É no abraço de seus cuidadores que a criança busca consolo, apoio, proteção. Tanto o colo, como o abraço tem formas circulares.

Logo, a primeira e maior referência do mundo da criança desde seu nascimento está fundamentada nesta forma orgânica circular. Ela é uma forma viva, natural, e saudável para a criança.

Um dos primeiros brinquedos oferecido à criança é a bola. Mais tarde ela brincará alegremente de girar seu corpo, brincará de roda, como reflexo de uma memória celular do movimento circular primordial.

O mundo da criança é redondo

No tanque de areia é quase instintivo que a criança faça bolinhos de areia. Temos ainda as fascinantes bolhas de sabão que encantam todas elas,  que brincam até a exaustão.

Há também a desafiadora bicicleta, sinônimo de autonomia e liberdade, o pião, as brincadeiras com bolinhas de gude, os carrinhos e tantos outros brinquedos e brincadeiras infantis.

Quando eu era criança

Por volta dos meus seis, sete anos, adorava brincar com os bambolês coloridos. Chegava da escola e corria pegar o meu. Passava horas girando-o na cintura, pescoço, braços. Desafiava outras crianças a rodá-lo mais tempo que eu sem deixar cair.  Adorava também brincar de caracol. Com giz, desenhávamos no chão uma grande espiral, dividindo-a em partes.  A brincadeira consistia em pular as casas com uma perna só, ida e volta, e assim marcar uma das casas com a inicial do nome, impedindo o próximo jogador colocar o pé na casa marcada. A criançada se divertia muito com essas brincadeiras.

 

Um alerta importante

Infelizmente hoje as crianças estão nos quadrados. Da TV à tela do smartphone, as crianças perderam o ritmo natural e orgânico do mundo redondo que as conceberam.  Isso tem acarretado desordens psíquicas, transtornos, dificuldade de socialização, obesidade infantil, aumento da miopia, etc…

Hoje já são oito milhões de pessoas viciadas em internet no país, segundo o Grupo de Dependência Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do  Hospital das Clínicas de São Paulo. De acordo com o Dr. Cristiano Nabuco, psicólogo e coordenador do Grupo, a situação é preocupante.  Ele tem atendido casos de crianças viciadas em smartphones, videogames e tablets, incapazes de se relacionar sem ser virtualmente, de manter a concentração e até mesmo dar sequência a um raciocínio lógico.  Ele relata casos de crianças com um pouco mais de 2 anos de idade que não comem, nem vão para a cama se não tiverem o aparelho ao lado.

A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que crianças menores de 3 anos não tenham acesso e nem sejam expostas passivamente aos aparelhos tecnológicos. Às crianças maiores, a orientação é de limitar o uso ao máximo uma hora por dia. Recomenda-se ainda que crianças de 0 à 10 anos não tenham TV no quarto.

Por que  pais e educadores devem ficar atentos ao acesso tecnológico precoce e intenso?

O Dr. Cristiano Nabuco explica que “nosso cérebro sofre um processo de amadurecimento que só é finalizado após a maioridade, aos 21 anos. A região do córtex pré-frontal é a última área a ser finalizada, e o córtex é responsável pelo nosso raciocínio lógico e também pelo controle dos impulsos, nosso freio comportamental”. E mais: “existem operações mentais que precisam naturalmente serem feitas e o grau de estimulação de um tablet desrespeita essa ‘ecologia’, essa natureza de desencadeamento da lógica”.

Já se sabe por meio de estudos que quanto mais a criança ficar exposta a tecnologia, piores serão suas funções cognitivas, como a memória e desenvolvimento da atenção. Uma pesquisa realizada pela Faculdade de Educação da Unicamp com meninos e meninas de 8 à 12 anos, que ficam de quatro a seis horas diante das telas de computadores, tablets, celulares e videogames,  aponta que crianças que usam aparelhos eletrônicos sem controle e não brincam, podem ter atraso no desenvolvimento. O resultado mostra que as crianças que se enquadram neste perfil acabam não brincando e nem tendo uma rotina, o que afeta o ritmo de construção do desenvolvimento cognitivo.

REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA

undo da criança é redondo

Temos sido tão impactados por esta revolução tecnológica, que perdemos valores importantes. Precisamos urgentemente reaprendê-los para resgatar a saúde da nossa sociedade e principalmente de nossas crianças. Comecemos então por resgatar o calor e a alegria do mundo redondo infantil. Comecemos por estimular o brincar livre na natureza.

O mundo da criança é redondo!

TUDO O QUE É REDONDO LEMBRA O CARINHO – Gaston Bachelard

 

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

A ESPERA LONGA E SEGURA DAS GRANDES CELEBRAÇÕES

Lavoura Arcaica - Tempo from Gláucio Dutra on Vimeo.

Há épocas do ano em que ficamos mais reflexivos, principalmente quando nos encontramos próximos a datas de grandes celebrações.

A semana passada li de Mario Sergio Cortella, o livro “Por que fazemos o que fazemos?” Várias questões me chamaram a atenção nessa leitura.  Uma delas diz respeito a uma importante característica do ser humano: somos seres de insatisfação.

Cortella cita em seu livro o filósofo alemão Martin Heidegger, que  denomina essa característica humana de sensação do oco, angústia.  E para deixar bem claro o significado dessa angústia, que neste caso não é algo negativo, o autor traz o exemplo de um antigo joguinho infantil feito de plástico, um quebra cabeças, onde era preciso movimentar as pecinhas para formar uma palavra, frase, sequência numérica , ou até mesmo uma imagem. Para movimentar o jogo e ordenar as peças, de modo a formar uma sequência lógica, era essencial um espaço vazio, senão não havia movimento. Com esse exemplo simples, conclui-se que a lacuna interior no ser humano, sua sensação de vazio, é o que cria possibilidades, e liberdade ao ser humano.

Grandes celebrações

Cortella escreve:

“O que é ser humano? É a capacidade de ter essa lacuna. Uma vez preenchida, estamos desumanizados.” UAU! Forte, não é mesmo? E mais adiante ele acrescenta: “Nesse sentido, um nível de insatisfação é extremamente benéfico para nós, porque ele impede o nosso automatismo.”

Essa característica humana foi ao longo do tempo sendo totalmente deturpada, e com isso criou-se a indústria do entretenimento, a sociedade de consumo, e as mais diversas distrações, assim como leis, moda, fantasias, tecnologias, etc… Tudo pensando em oferecer satisfação imediata ao ser humano, preencher a sensação de vazio existente. Cortella nos ajuda a refletir sobre a maneira que somos desumanizados, e mais, a maneira que o sistema usa para tirar nossa liberdade e nos escravizar, tornando nos robôs.

Nossa sociedade está submetida a um sistema que tem por objetivo roubar o que temos de mais importante: a vida, a consciência e o tempo. Nossa cultura nos distrai a todo momento das coisas que realmente importam, vai criando tantas necessidades supérfluas, que vamos nos afastando cada vez mais do que é essencial para o ser humano. Deixamos de lado o verdadeiro sentido da vida. Perdemos com isso a sensação de vazio, pois somos estimulados constantemente a encher de coisas nossas lacunas.

Somos pressionados e comprimidos do Carnaval até o Natal, ano após ano. Nem bem rasgamos a fantasia e os ovos de Páscoa já estão esbarrando em nossas cabeças nos corredores dos supermercados, fragmentando o nosso ser. Não nos permitem um tempo de preparação para os eventos da vida, para as épocas do ano, para as mudanças de estação. Somos atropelados com apelos de consumo, de modismo, de novidades. Criamos um museu de grandes novidades, como canta Cazuza. Estamos sempre correndo, comprando, fazendo, consumindo.

 

Esta aceleração do tempo, a antecipação constante dos eventos, nos rouba a consciência, a percepção, a capacidade de reflexão e o tempo natural de maturação de todas as coisas. Recentemente escrevi aqui  sobre a ausência de vivências de processos. Hoje tudo nos chega pronto: alimento, roupa, diversão, até mesmo o prazer chega em cápsulas, prontinho prá ser consumido. Com o imediatismo de tudo, não sabemos mais o tempo que as coisas levam até o estado de prontidão. Acima de tudo não sabemos mais esperar as respostas de um mundo verdadeiro e com isso nos iludimos achando que estamos nos apropriando de algo, quando na verdade o que nos chega não possui mais sua essência natural, é uma imitação, algo falso. Como diz o ditado, levamos gato por lebre, isto é, alimento por batata chip, prazer por êxtase, paz por tranquilizantes.

A época que antecede o Natal, chamada de Advento, que significa chegada, é um período riquíssimo de vivências de processos. É um tempo mágico para as crianças. E nos dias de hoje, onde tudo está tão acelerado e as grandes celebrações tão carentes de atenção e rituais, parar para preparar e saborear este período com as crianças, seja na escola ou em casa, é um verdadeiro presente que podemos oferecer à elas.

O filósofo sul-coreano-alemão Byung-Chul Han, autor do livro ‘O desaparecimento dos rituais‘, fala sobre a importância da vivência dos rituais pela sociedade, explicando que “transmitem e representam todos os valores e ordenamentos que portam uma comunidade, transformam o estar-no-mundo e um estar-em-casa, fazendo do mundo um lugar confiável”.

 

 

 

 

 


 

A época do Natal é rica em rituais de preparação. Como sugestão, fica aqui a indicação da montagem do presépio. Você pode fazê-lo em etapas, não tudo de uma vez. Comece quatro semanas antes do Natal, se for possível. Primeiro monte o cenário de fundo e traga pedras para enriquecer este espaço. Na segunda semana será a vez dos vegetais. Escolha com as crianças ramos no jardim ou parque, colha folhas verdinhas para enfeitar o cenário. E que tal enquanto for trabalhando com elas, ir cantando algumas canções natalinas? Na terceira semana chegará a vez dos animais: o burrinho, o boi, e a ovelhinha. Ah, é interessante que todas as vezes que chamar as crianças para a montagem do presépio, você acenda primeiramente uma vela. Por fim, na quarta e última semana, vocês introduzirão os personagens, Maria, José e os pastores. E na noite de Natal, sem que as crianças percebam, coloque na manjedoura o menino Jesus.

Esta é uma proposta de ricas vivências e reforço de vínculos de amor com as crianças. Uma oportunidade de convívio familiar salutar. Uma forma de saborear a espera longa e segura das grandes celebrações!

Dezembro carrega a força do recomeço, somos convidados a examinar aquilo o que se perdeu ao logo do caminho e começar de novo com entusiasmo. “Não despreze os pequenos começos.” (Zacarias 4:10)

Desejo à todos um Feliz Natal, e deixo como presente o texto abaixo:

abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

 

O tempo é o maior tesouro de que o homem pode dispor.

Embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento.

Sem medida que o conheça, o tempo é contudo

nosso bem de maior grandeza, não tem começo, não tem fim.

Rico não é o homem que coleciona

e se pesa num amontoado de moedas

nem aquele devasso que estende mãos e braços em terras largas.

Rico só é o homem que aprendeu piedoso

e humilde a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura,

não se rebelando contra o seu curso, brindando antes com sabedoria,

para receber dele os favores e não sua ira.

O equilíbrio da vida

está essencialmente nesse bem supremo,

E quem souber com acerto

a quantidade de vagar ou de espera

que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco

ao buscar por elas e defrontar-se com o que não é.

Pois só a justa medida do tempo

dá a justa natureza das coisas.”

Raduan Nassar

Lavoura Arcaica

 

 

 

 

 

 

MEU GUARDA CHUVA E A MULHER DE LÓ

Meu guarda chuva e a mulher de Ló

A correria da vida moderna acaba muitas vezes gerando ótimas histórias. Quero  contar  uma dessas, a  história do Meu guarda chuva e a mulher de Ló.

Este texto fala sobre fase de transição, fechamento de ciclos, e recomeços. Como é difícil desapegarmos do que é conhecido, familiar, sem olhar para trás. Sair da zona de conforto e seguir rumo ao incerto, ao desconhecido, em direção ao nosso vir a ser!

Quem vive em grandes centros urbanos, principalmente numa cidade como São Paulo, sabe o nível de stress a que estamos expostos todos os dias. É o trânsito caótico, a violência das ruas, o desrespeito, a falta de gentileza, e muito mais. Além da sensação de estarmos sempre correndo e atrasados.

Foi assim que cheguei a uma reunião esta semana: apressada, com a respiração curta e sentindo me sobrecarregada, segurando bolsa, pasta, casaco e meu guarda-chuva, pois a iminência de chuva era grande.

Ao sair da reunião, já atrasada para outro compromisso, precisava antes ir ao toalete. Sabia que o caminho seria longo e demorado. Já na rua, próximo ao local onde estacionei o carro, percebi que estava faltando alguma coisa em minha mão. Era meu guarda-chuva, que havia esquecido no banheiro. Ah! Meu guarda-chuva! – foi o lamento naquela hora. E no mesmo momento veio a lembrança de quando o ganhei e  quem me deu aquele lindo guarda-chuva.

Numa fração de segundos, meu corpo quis fazer um movimento de giro para voltar ao prédio e resgatar o guarda-chuva. Porém reagi rapidamente contrariando aquele impulso instintivo. Meu olhar convicto e meus passos firmes, avançaram em direção ao carro. Prossegui certa de que aquilo era o melhor a fazer, pois se eu voltasse, não chegaria a tempo para o compromisso seguinte que estava diretamente relacionado a um novo projeto de vida.

Enquanto dirigia o carro rumo ao futuro, fui refletindo sobre o significado e valor daquela atitude tão resoluta. Por um instante eu não me reconheci. A mulher que sempre fui, com certeza retornaria para pegar seu pertence, não se desapegaria tão facilmente daquela história, pois os objetos tem história. A mulher que sempre fui não assumiria a perda, não correria o risco de ser censurada mais tarde por não ter tomado a atitude correta. Mas ali estava uma outra mulher, uma reinvenção de mim mesma. Uma mulher mais confiante, decidida, e focada.

Lembrei nesta hora da passagem bíblica sobre a mulher de Ló. Ló era sobrinho do grande pai Abraão, e teve que deixar às pressas a cidade onde morava, Sodoma, que havia sido condenada à destruição. Ele, sua mulher e suas filhas tiveram que deixar a casa onde viviam. Provavelmente tiveram que abandonar amigos queridos, deixar para trás uma vida estável e de conforto, para começar uma nova história em outro lugar, numa cidade desconhecida. Sem levar nada do que lhes pertencia, e sem olhar para trás, saíram correndo apressados rumo ao futuro. Porém, a mulher de Ló hesitante, querendo talvez olhar mais uma vez para sua casa, para as flores do seu belo jardim, virou se para um derradeiro olhar. E todos nós sabemos o que aconteceu a ela. No instante que olhou para trás, a mulher de Ló foi transformada em estátua de sal.

Como é difícil em fase de transição, confiarmos no que está por vir sem hesitação! Como é difícil desapegarmos do que é conhecido, familiar, sairmos da zona de conforto e seguirmos rumo ao incerto, ao desconhecido, em direção ao nosso vir a ser! Como é difícil confiar que seremos capazes de enfrentar novos desafios, caminhar rumo ao novo, recomeçar.

Todo o processo de mudança necessita de tempo para se consolidar.  Ele é composto de três fases, como explica Willian Bridges, renomado consultor americano, especialista em gerenciamento de transição:

 

-Fase de encerramento de um ciclo: onde abandonamos antigos hábitos, modo de pensar e de agir. Deixamos para trás o que não nos serve mais. É uma fase de incerteza, pois não sabemos o que vem pela frente.

“Concentre-se no que está buscando, não no que está deixando para trás.” – Alan Cohen

 

-Fase neutra: é o período das maiores dúvidas, pois a impressão é de que nada está acontecendo. O novo parece não se configurar diante dos nossos olhos. Olhamos para o horizonte e não enxergamos nada.

“Não se descobre novas terras sem consentir perder de vista a praia durante muito tempo.” – André Gide

 

-Fase de reinício: é quando ultrapassamos o período de transição dentro de nós mesmos e começamos a vislumbrar as primeiras mudanças fora de nós, no ambiente externo.

“Apenas aqueles que se arriscam a ir muito longe possivelmente conseguirão descobrir quão longe se pode ir.”- T.S.Eliot

 

Em momentos de transição quatro coisas são fundamentais:

CLAREZA DE PROPÓSITO

“Uma visão sem uma tarefa, é apenas um sonho. Uma tarefa sem uma visão, é somente um trabalho árduo. Mas, uma visão com uma tarefa, pode mudar o mundo.” – Declaração de Mount Abu Projeto Cooperação Global para um Mundo Melhor” – Universidade Brahma Kumaris-1988/1990.

AUTO-CONFIANÇA

“Os seus diamantes não estão em montanhas longínquas, nem em mares distantes; estão no seu próprio quintal, desde que você se disponha a extraí-los.” – Russell H. Conwell 

FOCO

“Algumas pessoas acham que foco significa dizer SIM para a coisa em que você irá se focar. Mas não é nada disso. Significa dizer NÃO às centenas de outras boas ideias que existem. Você precisa selecionar cuidadosamente.”- Steve Jobs

CORAGEM

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”- João Guimarães Rosa

Esses quatro requisitos estão ligados entre si e precisam caminhar juntos ao longo de todo o processo de transição até a consolidação das mudanças. Um propósito bem definido elimina as dúvidas, promove a autoconfiança e ajusta o foco. E uma vez confiantes e focados, a coragem vem como co-piloto nos apoiando em todo o trajeto rumo ao futuro. Assim tornar-se-á mais fácil renunciar aos “guarda-chuvas” que insistem em nos paralisar pelo caminho como aconteceu com a mulher de Ló. Vamos em frente com fé, confiança e esperança, que é a âncora da alma (Hebreus 6:19).

Se você gostou da história do Meu guarda chuva e a mulher de Ló, compartilhe com amigos e deixe seu comentário abaixo.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

DO FAST FOOD AO VIAGRA, ONDE FICAM OS PROCESSOS?

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO

Sou neta e filha de mineira, porém minha mãe veio para São Paulo bem pequena e daqui não saiu mais. Minha avó, Alice, como boa mineira, cozinhava comidinhas deliciosas. Lembro que acompanhava seus movimentos na cozinha, e me encantava com o trabalho das suas mãos hábeis e ágeis. Ninguém fazia croquetes de carne como ela. Nunca mais provei igual. Adorava seus bolinhos de arroz, era fã das suas panquecas de carne, mas os doces eram sua especialidade: arroz doce, doce de abóbora, e o famoso doce de leite.

Na cozinha da Vovó

Nas minhas lembranças de infância, guardo viva a imagem dela preparando esta delícia. Vovó colocava na panela o leite condensado, a manteiga, o cocô ralado, e o açúcar. Com a colher de pau mexia, mexia um tempão! Quando finalmente a mistura ficava mais encorpada, ela retirava do fogo e despejava aquela massa sob a pia de mármore esticando-a. Hum! Aquele cheirinho gostoso que se espalhava pela cozinha, aguçava as papilas gustativas e lá corria eu para raspar a panela e lamber a colher de pau.

Depois de horas, quando a massa já havia esfriado, vinha o momento que eu mais gostava. Vovó virava uma artista, e com uma faca enorme, cortava o doce em losangos, em tamanhos iguaizinhos! Depois colocava num pote de vidro transparente e guardava no armário da cozinha. Porém rapidamente aquele pote esvaziava-se. Os netos todos, vovô, minha tia, davam conta rapidamente de acabar com tudo.

do fast food ao viagra

 

Ah que saudade da cozinha da vovó!

Hoje em dia entregamos a feitura de quase tudo para as máquinas, desde a comida, até a roupa, incluindo brinquedo e muitos outros artigos. As gerações mais novas não imaginam como as coisas são realmente feitas, e com isso hoje ninguém mais vivencia os processos da feitura das coisas.

 

 

Quando completei 15 anos…

Minha mãe fez uma festa para mim. Ela que sempre foi uma mulher de muitos talentos, também costurava e foi quem confeccionou meu vestido. Pesquisamos vários modelos em uma revista de moda. Depois de escolhido um lindo modelo e definida a cor, saímos para comprar o tecido, e os aviamentos. Mamãe copiou o molde no papel, recortou-o, e cortou o tecido com base no molde. Alinhavou umas partes, outras alfinetou, e assim fiz a primeira prova do vestido. Foram várias provas e algumas alfinetadas também, até que ficou pronto o vestido mais lindo do mundo!

Enquanto mamãe foi costurando, eu fui sonhando com o vestido finalizado e com o dia da festa. Cada etapa do processo de confecção do vestido foi aos poucos me preparando para o grande dia. Todo este tempo de espera que durou várias semanas, teve grande importância para o amadurecimento dos meus sentimentos e emoções. Vibrei e saboreei todo este processo tanto quanto o dia da festa, que foi inesquecível.

Entretanto, hoje nos distanciamos dos processos em todas as dimensões da vida. Tudo vem pronto. Na alimentação não descascamos mais nada, desembrulhamos tudo, apenas temos o trabalho de tirar das embalagens e das caixinhas aquilo que consumimos. No vestuário, com a proliferação das roupas produzidas em escala, em países como a China, basta olhar as centenas de vitrines dos shoppings center, em seguida apontar a roupa para a atendente de uma loja de departamento, sacar o cartão de crédito e horas depois ir para a festa de roupa nova.

A sociedade atual “beneficiada” cada vez mais pelos avanços tecnológicos, esqueceu-se de algo tão salutar para o desenvolvimento humano: a importância dos processos. O pensamento e o sentimento estão contidos nos processos do fazer. O pensamento entra em ação, o sentimento desperta, e tudo se encaixa num trabalho conjunto que vai aos poucos sofrendo pequenas transformações. Numa sequência de etapas, acontece a preparação até chegar a  prontidão. Os processos possuem um sentido educativo e terapêutico também. Neles há um mistério, uma magia e encantamento.

O processo é tão importante quanto o resultado final. No decorrer dele vamos ganhando confiança, nos tornando mais seguros, com a superação de medos e angústias. Amadurecemos ideias e sentimentos. É durante o processo que experimentamos, acrescentamos, lapidamos, cortamos arestas e mudanças vão acontecendo.

É importante que a criança vivencie os processos para perceber que nada chega pronto. E COMO FAZER ISSO? Podemos inseri-la na rotina das tarefas do dia a dia, permitindo a participação no preparo das coisas. A cozinha é um ambiente rico de vivências de processos, com o preparo das refeições, lanches. É importante chamar a criança para fazer junto, delegar pequenas coisas que ela possa fazer sozinha, como misturar os ingredientes de um bolo, peneirar farinha, etc…

O cuidado com o jardim é outra atividade cheia de sentido para a criança, que ficará  alegre ao plantar e acompanhar o germinar de uma semente, regá-la, e observar seu crescimento.

crianças-cuidando-do-jardim

Algumas brincadeiras também podem propiciar a vivência de processos, como atividade com argila. Após o manuseio da massa e de dar a forma desejada a ela, é preciso esperar que  seque e em alguns casos é necessário levar ao forno, para só então poder pintá-la.

Porém, desaprendemos a esperar o tempo de amadurecimento das coisas, nossa sociedade imediatista, na ânsia da realização instantânea dos seus desejos, suprimiu até mesmo a fase de sedução entre os amantes, onde a visão despertava o desejo, que tomava conta do sentimento e sequências estimuladoras de hormônios eram desencadeadas, até que, tanto o corpo feminino dava sinais que estava pronto para o enlace amoroso, como o corpo masculino também aos poucos percorrendo seu caminho, culminava na prontidão. Hoje basta uma pílula para garantir subitamente o prazer.

Do fast food ao Viagra, os processos foram deixados para trás, bem como a beleza das paisagens do trajeto até o destino final. Paisagens que alegravam e nutriam a alma, não existem mais. Economizamos no tempo da viagem, com certeza, todavia empobrecemos o percurso. Vale a pena refletir sobre o que ganhamos e perdemos com isso.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado